
No retiro da cabana abandonada a chuva do vento roça pelas folhas sequiosas das árvores milenárias que se dispõem num harmonioso carrocel em torno de vigas e barrotes da castanha madeira da floresta de Blablabla.
A hora é de insónia, o prazer insinua-se vazio, a atmosfera é rasgada por raios de pensamentos psicopatas onde o sexo domina os seus adversários de corrida.
O calor das luzes apagadas exerce um efeito fustigador no raciocínio e as ideias nascem com deformações inatas.
Os corpos celestes aproximam-se , na terra ardente, a fúria é controlada na origem e é cortada, é insultada e é espezinhada.
Balões de oxigénio combustível são queimados por neurónios sedentos de um alimento diferente mas os produtos da combustão são um verdadeiro veneno tóxico para o reino cerebral e a confusão não pára de aumentar.
As relações entre brincos e gravatas são uma amálgama totalmente liquefeita e a paz não se discute em corredores pentagonais mas sim em longas pistas ovais de nuvens negras.
Vivem nesta atmosfera comum dois heróis da banda desenhada universal, por Deus chamados Tim e Tina.
Longos cabelos loiros escorrem pela pele dos corpos nus e estranhamente belos, e ambos se olham com lindos olhos azúis, procurando perscrutar os seus interiores em tentativas desesperadas de encontrar a pedra filosofal do entendimento.
Tim é um gestor de sucessos sociais e consome mais álcool do que a água que lhe arrefece a garganta apenas para empapar os papéis de música das suas ressacas.
Tina toca piano e pinta uns quadros que são vendidos à entrada da praia dos pescadores. Não percebe muito bem a necessidade de Tim abrigar-se horas a fio sob um tecto de escritório, como que receando um ataque aéreo mas também só dá por falta dele quando o piano já está cansado de fazer saltar as teclas em compassos académicos.
Os anos desfolham-se num calendário pendurado num estaleiro de obra e Tim torna-se numa personagem semelhante à que se despiu para a fotografia, o dinheiro desculpa tudo, o fim justifica os meios.
Tina vendeu a música do piano e comprou um gravador de palavras que liga directamente ao compartimento esotérico do seu cérebro.
A relação entre os dois é maravilhosamente estranha, é particularmente difícil, é calmamente louca, têm momentos de comunhão perfeita, momentos em que os electróes do prazer orbitam em velocidades estonteantes fazendo incursões supersónicas ao paraíso original e mordendo com voracidade todos os pecados de todas as Evas e de todos os Adões, momentos de calma transbordante de harmonia, momentos repletos de um silêncio carregado de palavras mudas mas tão perfeitamente entendidas pelos cérebros, mas também têm momentos mortalmente conflituosos em que a temperatura da discórdia aumenta sem controlo, momentos em que os seus anjos da guarda são vencidos sem apelo nem agravo, momentos em que saiem da rota do Universo perdendo assim mais algum tempo no caminho para a chegada desconhecida.
Nem sempre a consciência do caminho está presente, as solicitações são muitas e há necessidade de dar livre curso à faceta aleatória da vida, deixando correr o marfim, deixando para trás das costas as regras rígidas da escola da vida.
(continua, se os anjos deixarem...)
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