
Fúria Terrível
Medito na vida.
Medito na amizade
e no amor.
Medito no que sou obrigado
a não fazer.
Forças estranhas
cruzam o espaço cerebral
em busca de um fim.
As rotas são confusas
e os destinos também.
A clareza não impera,
melhor, não existe.
Chamo maldita
à inibição.
Chamo perversa
à inacção.
Chamo tudo
à sociedade.
Desgraçada teia
que nos impede de mover.
Desgraçada carcaça podre
que nos mascara
com baton negro.
Desgraçada solteirona
que se ri
das legais assinaturas
em registos de papel.
Benditas as chamas purificadoras.
Bendito o anarquismo mental
e a libertação psicológica.
Quero quebrar as amarras
que me atam os neurónios.
Quero derreter a solda
que me manieta os membros.
Quero viver
como o "deus" me ordena.
Quero amar o próximo
mas a mim também.
Natureza, irmã das tempestades,
peço-te hoje
a chuva regeneradora
o vento catalizador
e a tua fúria amiga.
Transforma-me no selvagem
que me fervilha nas veias.
Fustiga-me
com o saber milenário
e com um chicote de algodão.
Sinto a válvula a abrir
depois da tinta correr,
mas fico longe
do início do desejo.
Tenho que olhar a floresta,
saborear o ar oxigenado,
provar a erva fresca,
estender-me nas savanas.
Preciso de viver,
num hospital de doidos,
para alimentar a loucura.
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